Mobi cumpre o que promete? Avalia principais pontos.
Visual e central exclusiva se destacam; mecânica ‘datada’ joga contra.
Querendo abrir mão da imagem de ser só uma marca da carro “barato”, a
Fiat diz que a recém-lançada picape Toro é o topo do “sanduíche” que
representa a nova fase da marca no Brasil. O Mobi, veículo racional,
pensado para uso urbano, e por isso, oferecido exclusivamente com motor
1.0, é a base. Ou seja, todos os novos modelos não serão nem mais
simples nem mais sofisticados do que esses dois.
A missão do Mobi, portanto, é ser o novo modelo de entrada. Mas e o
Palio Fire, que ainda representa metade das vendas do Palio (os balanços
costumam somar os emplacamentos desse hatch da geração antiga com os do
atual)? O defasado e “peladão” vai continuar no mercado, pelo menos por
enquanto, mas a montadora afirma que seu foco é basicamente a venda
para frota.
Como o novo modelo “básico” para os clientes comuns, o Mobi de fato
quebra alguns parâmetros da Fiat nesse segmento. Além de um design longe
de ser básico, ele é o único a ter poucos opcionais. Nos demais, era
preciso pagar a mais por quase tudo nas versões iniciais e
intermediária.
O novo tem ainda uma versão “peladona” (Easy) – que, logo de cara, causa o primeiro desapontamento. Não se deixe levar pelo
preço inicial de R$ 31.900
dela, pois a lista de itens de série é escassa. Devem ser consideradas
as versões seguintes. A Easy On, por exemplo, de R$ 35.800, já é mais
equipada.
Nada que seja inovador para o mercado: a Fiat basicamente segue a
receita de sucesso que começou outras marcas começaram a adotar há
alguns anos. Hoje, não há Forda
Ka, Hyundai
HB20 e Chevrolet
Onix sem ar e direção hidráulica de série. Tal tática foi erroneamente ignorada pela Volkswagen, com o
Up!, em 2014.
É caro demais?
No entanto, a expectativa de que o Mobi seria também o mais barato dos
concorrentes caiu por terra com o anúncio dos preços. Mesmo a versão sem
ar ultrapassa a faixa dos R$ 30 mil.
De novo, a Fiat responde dizendo que não quer mais ser uma marca só
conhecida pelos carros baratos, como se isso fosse sinal de baixa
qualidade. “(Partir de) R$ 29.900 talvez fizessem sentido há 1 ano”, diz
o gerente da marca, Carlos Eugênio Dutra, considerando a inflação.
É verdade que, atualmente,
com a saída da chinesa Geely do mercado, a lista dos
carros que custam menos de R$ 30 mil ficou limitada ao Palio Fire. Fora o Up!, os grandes concorrentes do Fiat já passam de R$ 40 mil.
A questão é que o Mobi também pode superar - e bem os R$ 40 mil. Na
configuração mais completa, Way On, as cifras chegam a quase R$ 44 mil.
Com esse valor, dá pra comprar versões bem equipadas de Onix, HB20, Ka e
Gol.
Soma-se a isso o fato de que todos os modelos acima são maiores, um
quesito que pesa bastante quando alguém busca por um carro que será o
único da casa – o Up! (que nem é tão pequeno) que o “diga”.
É pequeno demais?
O Mobi é descrito pela Fiat como “irmão” menor do Uno. Ele tem 24,5
centímetros a menos de comprimento e críticos 7 cm a menos da distância
entre-eixos, que representa o espaço interno e o de bagagem. Ele também é
menor que o Up!, sobretudo nesse quesito (expressivos 12 cm a menos de
entre-eixos).
Nas medidas, o problema principal está no porta-malas. São 235 litros
de capacidade, segundo a Fiat, contra 290 l do Uno e 285 l do
Volkswagen. Para compensar, todas as versões do Mobi têm banco traseiro
bipartido. Se for levar 4 pessoas, no entanto, não resolve.
Mesmo com bagagem restrita, esses 4 ocupantes terão quase tanto espaço
no Fiat quanto em outros carros compactos. Andar atrás não é uma tortura
(se não forem muitas horas de viagem, claro), desde que os ocupantes da
frentes sejam generosos na posição dos bancos.
Uma diagonal que vem subido a partir das portas da frente em direção ao
porta-malas deixa as janelas mais estreitas, e causa uma pequena
sensação de claustrofobia.
Há quem se incomode com os bancos um pouco mais estreitos na frente. No
mais, a ergonomia segue regras básicas, com controles à mão. A visão
traseira não é ruim, mas desaponta quem se empolga com todo aquele vidro
na tampa do porta-malas. A área de visão do motorista é limitada.
Boas sacadas
Nesse quesito, o Mobi não passa batido: o design lembra alguns
elementos do Uno, como a traseira quadrada, mas há mais vincos, com a
missão de deixar o carro com uma cara mais robusta. Como já aconteceu
com o “irmão” maior, tudo parece direcionado a um público mais jovem:
inclusive as propagandas.
A tampa do porta-malas em vidro, que a Volkswagen dispensou no Up!
brasileiro, acrescenta estilo e dá o ar mais sofisticado que a Fiat
buscou. O painel também é parecido com o do Uno na predisposição, mas é
mais básico. Seguindo a tradição dos modelos de entrada, há muito
plástico duro, com grafismos que tentam dar um ar menos simplório.
Apesar de ser mais equipado a partir da segunda das seis configurações
oferecidas, vidros elétricos só são inclusos a partir da terceira, Like
(R$ 37.900).
A maior sacada em termos de equipamentos será opcional - também a
partir da Like - e só será vendida a partir de junho: é a central Live,
que faz do smartphone do usuário a tela do sistema de entretenimento.
Não é um simples porta-celular. Por meio de um aplicativo exclusivo,
ela cria uma interface própria, que se parece com uma central
multimídia, e permite que o usuário lance mão de apps famosos que já
tenha instalados no smartphone, como Waze, Spotfy e Deezer. Isso além
das funções básicas de atendimento de chamadas telefônicas e reprodução
de músicas do aparelho.
Esteticamente, não é a solução mais bonita (veja na foto), mas é das
mais completas entre os concorrentes. É pena que não esteja disponível
desde o lançamento do carro e não possa ser instalada posteriormente.
Quem comprar agora vai sair com a mesma central do Uno, a Connect,
pagando R$ 2.100 a mais (o preço da futura central Live ainda não foi
divulgado, mas a Fiat diz estudar manter o valor dessa).
Mecânica peca
Apesar do visual descolado e de boas sacadas, a Fiat pecou ao lançar o
Mobi com um “coração” antigo e cansado. O conjunto mecânico é o mesmo do
velho Palio, o 1.0 Fire, de 4 cilindros e 75 cavalos e 9,9 kgfm de
torque.
Há a expectativa de que, num futuro não tão distante, o Mobi estreie um
motor de 3 cilindros e 6 válvulas da Fiat, aderindo, enfim, ao que seus
concorrentes HB20, Up! e Ka já têm: projetos mais modernos.
A montadora admite que o Mobi deveria ter sido lançado no começo do
ano, mas nega que o atraso tenha ocorrido por conta de espera por um
motor de 3 cilindros. “O Mobi foi já pensado para ter esse motor (do
Palio)”, diz o presidente da Fiat Chrysler no Brasil, Stefan Ketter.
O primeiro contato do
G1 com o carro foi basicamente
em trajeto urbano, que deve ser seu principal território. A suspensão,
mais mole, não chega a incomodar e absorve razoavelmente as imperfeições
de asfaltos judiados, como em outros Fiat.
Mas basicamente todos os seus rivais se mostram mais espertos no
desempenho, principalmente em momentos que exigem arrancada. Subidas
requerem esforço, mesmo com o carro pouco carregado.
Apesar de ser menor, o novo hatch é mais pesado que seu concorrente
direto, o Up!: até 966 kg contra até 958 kg do Volkswagen. No consumo, a
briga é a ainda mais desigual. Segundo dados do Inmetro, o Up! faz 9,2
km/l (etanol) e 13,5 km/l (gasolina) na cidade. O Mobi, 8,4 km/l
(etanol) e 11,9 km/l (gasolina). Na estrada, o consumo dos dois é mais
parecido.
Vai ‘colar’?
A Fiat espera vender cerca de 60 mil unidades do Mobi até o fim do ano.
Isso significa colocá-lo entre os 3 carros mais vendidos no país mês a
mês. A montadora já reconheceu que o mercado brasileiro vivia outros
tempos quando foi aprovada a construção do carro e, com a crise dos
últimos anos, ele encolheu bastante, o que aumenta o desafio para os
modelos de entrada, baseados em vendas volumosas.
A montadora diz que não colocou o Mobi no mercado para perder: “Ele é
bastante competitivo tanto nas versões mais simples quanto nas mais
equipadas comparado com outros concorrentes. Fizemos clínicas (testes
com clientes) extensivas”, diz Dutra.
Apesar de o novo hatch não ser o mais barato do país e da derrapada do
conjunto mecânico datado, a montadora tem ao seu lado o fato de ser uma
especialista em modelos de volume, colocando 2 entre os 10 mais
emplacados no ano até agora (Palio e Strada), feito só igualado pela
Chevrolet (Onix e Prisma), de acordo com dados de março da federação dos
concessionários, a Fenabrave. A questão é que, agora, a marca vai
precisar conquistar mais o cliente comum e depender menos do frotista.